quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Beth Goulart fala de Clarice Lispector no Jô

Jô Soares entrevista Beth Goulart - 16/09/2010

Trecho no qual  Beth fala sobre Clarice Lispector.  

Jô: E a Clarice, como pintou na sua vida?

Beth: A Clarice tá na minha vida desde a adolescência. Eu sou admiradora profunda de Clarice. E ela veio me acompanhando, e eu a ela durante muito tempo, até que um determinado momento eu falei "ah, eu queria fazer alguma sobre ela". Eu li um livro muito interessante. Era a correspondência da Clarice Lispector com o Fernando Sabino, Cartas do coração, nao sei se você já leu esse livro.

Jô: não, não li não.

Beth: Quando eu li, eu disse, nossa, daria um espetáculo tão bonito, tão bacana, dois autores tão interesantes, tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão ... (procurando a palavra) interessantes. Aí quis fazer uma adaptação deste trabalho, deste livro. Ali eu comecei a ver a Clarice como personagem. Porque até então eu não sabia exatamente o que eu queria fazer da Clarice. Sabia que alguma coisa em algum momento eu iria fazer. mas não sabia exatamente o que. E ai falei não, dá um espetáculo interessante. Comecei a trabalhar, pesquisar, a estudar sobre isso. Durante o processo não foi possível fazer esse trabalho mas ali eu vislumbrei a Clarice como personagem e ali eu assumi um compromisso de certa maneira com ela. De poder chegar um pouquinho perto dela, trazê-la um pouco pro teatro, pra chegar perto das pessoas, criar uma ponte humana entre ela, sua obra e o público. As pessoas acham que a Clarice é uma coisa meio inatingível, né, uma áurea de mistério. Muita gente (fala): ‘ai mas ela tão difícil’ e eu não achava. Nunca achei ela difícil.

Jô: não, difícil não, é porque ela se transformou num mito, inclusive porque você falou em Fernando Sabino; é toda uma geração que ficou fascinada pela Clarice. Aliás, inclusive no sentido de ela ser mulher e escrever como homem. Antigamente tinha muito isso.

Beth: você sabe que Clarice é a escritora com mais teses pelo mundo. Então o mundo inteiro fica interessado em conhecer Clarice.

Jô:  E eu acho que isso, que é uma coisa quase que machista, todos eles se identificavam com a maneira de escrever dela. O que não era exclusividade deles, porque todo o mundo, o mundo inteiro tem fascínio pela Clarice. Eu entrevistei aqui uma cantora americana  que fala português (cita o nome) e ela falou que uma das primeiras leituras dela em português era Clarice. Então é um fascínio mundial.

Beth: Ela realmente é fascinante mesmo.

Jô: Como é a história do sotaque?

Beth: Ah, é engraçado. Muita gente acha que ela tem um sotaque estrangeiro, mas na verdade o sotaque da Clarice é do nordeste, né, do Recife. Ela tem uma cantada, um jeito de falar assim meio cantadinho, né. (Começa a imitar o sotaque de Clarice) Vai falando assim, só que quando você coloca a língua presa, parece de um outro lugar, quase um outro país. Na verdade não é. É nordestino.

Jô: Nordestino com a língua presa. Fala um trechinho pra gente.

Beth: Ela fala assim: "Escrevo porque encontro nisso um prazer, que não sei traduzir. Não sou pretensiosa." É uma coisa meio assim.

Jô: Uma entonação meio francesa.

Beth: É uma cantadinha. Mas cantadinha, que é bonitinha, é uma cantadinha nordestina. O r é que da essa misturadinha que parece de outro país.

Jô: Até que ponto influencia na vida da Clarice o fato de ela uma mulher bonita, uma mulher interessante?

Beth: Ah, eu acho que influencia muito, ela era muito vaidosa. Toda mulher vaidosa, assim..(sic)  tem um momento do espetáculo que eu faço uma entrevista que ela diz assim, ‘ah a minha vaidade não é literária não, eu não ligo, mas eu gosto que me achem bonita’. Isso, toda mulher de certa maneira tem esse prazer.

Jô: Claro, né, evidente. E quando você começa elogiando a beleza, falam  ‘não, mas não é só isso’. 

Beth: É (sorrindo).

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Assista a entrevista no you tube.

Autora do blog: Belinha.

domingo, 22 de janeiro de 2012

SARAMINDA: O ROMANCE SENSUAL DE JOSÉ SARNEY



A maioria das pessoas lembra imediatamente de política quando se fala no nome de José Sarney. Mas além de figura pública, Sarney tem cadeira na ABL e vale a pena conhecer um pouco algumas de suas dezenas de obras. Saraminda, por exemplo, é um romance ambientado no garimpo de Caiena. A personagem-título, com seus seios amarelos e olhos verdes, destila sensualidade e atitude. Mulher de Cleto Bonfim, o rei do garimpo, ela era prostituta quando ele a arrematou  num leilão por 10 quilos de ouro. Regras morais não dizem muito para essa fogosa mulher que subjuga os homens diante de sua beleza e ousadia.
Mas não se pense que Saraminda era uma devassa ou ninfomaníaca. Ela não buscava necessariamente sexo, mas sujeitar os homens à sua vontade, “brincar com eles”. Ela mesma explica:
“Os homens são fáceis. A caça mais certa de apanhar. Eu brincava com eles, sabia a arte de seduzi-los, levá-los ao desejo insaciável, mas não me entregava. Não me dava vontade de me entregar. Eu queria sempre que eles tentassem de novo. Eram sujos, tinham cheiro de trabalho e pingavam ouro. Minha fidelidade a Cleto era não querer deitar com outros homens, mas eu fazia mais. Eu brincava com eles como com as bonecas. Eu tinha o prazer de me mostrar, o segredo deles me verem nua e fecharem os olhos com medo”.
O prazer de Saraminda era atiçar o desejo dos homens, enlouquecê-los. E mostrar sua nudez era uma de suas provocações prediletas, como no episódio em que manda chamar Celestino, o capaz de seu marido:
__ Celestino, mandei chamar você para que me visse, me olhasse, porque você sempre está me olhando com vontade de me ver.
__ Saraminda, não faça isso comigo, não posso trair Cleto. Por que você me escolheu para isso, menina?
Quando ele falou ‘menina’, sentiu que a palavra revelava um sentimento oculto de ternura que podia ser a barreira a transpor contra sua lealdade.
E ela pediu:
__ Me beija Celestino.
E Celestino fraquejou, beijou-a. Sentiu um gosto de veneno e saiu correndo, mas não passou da varanda, contido pelo rosnar forte de Leão, que ele rapidamente entendeu. Desse dia ele não esqueceria nunca. Ficou com raiva, amor e ciúme.
__ Leão, deixa ele sair e vem cá.
O cachorro afastou-se e Celestino seguiu o seu caminho. Não dormia mais, não pensava mais no trabalho, nem no ouro, só pensava no corpo de Saraminda.
Banhos de Saraminda no rio, sua paixão por um francês, cães estraçalhando um homem, o apogeu e decadência do garimpo, suicídio, enfim, muitas emoções perpassam o romance. A leitura de Saraminda flui de forma rápida e natural como as águas de uma correnteza. Lembra um pouco Gabriela, de Jorge Amado, mas ao contrário do combativo escritor baiano, Sarney evita assuntos políticos, até por imperativos lógicos. O romance é focado nas descrições poéticas e na fabulação regionalista, atentamente pesquisada por Sarney.
Como já vai longe a época da literatura de heróis ou mocinhos, os personagens tem seus pecados e infâmias expostos. Veja como a empregada de Saraminda descreve seus patrões:
__ Eu vim pra cá trazida por seu Bonfim. Trabalhava com ele. Quando Dona Saraminda ficou sua mulher de casa, amasiada, ele me trouxe para serviço dela. No princípio me fez mulher dele, quando chegava embriagado. Depois não me quis mais. Saraminda gostou do meu trabalho e me tem no seu serviço. Prometeu me dar uma casa em Caiena e um quilo de ouro. Mas é mulher viciosa. Nunca vi coisa assim. É de dia e de noite. Todo homem que olha quer agarrar. Mas não deita de logo, se torna difícil, eles ficam doidos e bestas como ficou seu Bonfim. Faz assim porque é fêmea diferente, basta olhar seus peitos. Se fosse como nós, já tinha apanhado muito.
Observe-se que ela diz que Saraminda é uma fêmea diferente. Através de detalhes como esse, é possível perceber que o autor de Saraminda não conseguiu fugir dos exageros da construção de uma imagem estereotipada de fêmea fatal. Segundo a Wikipédia, “ mulher fatal” ou femme fatale é o estereótipo da “mulher que seduz e engana o herói e outros homens para obter algo que eles não dariam livremente” (...) “ O  homem se torna obcecado, viciado e exausto, e incapaz de tomar decisões pessoais ou gerenciar sua própria vida pessoal”.  Assim como na música “Mulher nova, bonita e carinhosa”, de Amelinha, Saraminda consegue transformar Cleto em seu joguete, com sua malemolência e seu jogo erótico aparentemente despretencioso. Oferece a ele prazer, ciúme e dor. 
A intenção do romance é que o leitor, assim como Cleto e os demais homens, também se renda a essa mulher, que apesar de não ser a pioneira da sensualidade de nossas Letras e dos detalhes às vezes óbvios, tem potencial para figurar como mais um grande ícone na galeria de personagens femininas de nosso país.

sábado, 21 de janeiro de 2012

AH, QUE SAUDADE DE NELSON RODRIGUES....

Sobre Nelson Rodrigues:

" Você está com saúde de vaca premiada". (Otto Lara Resende para Nelson Rodrigues, após este sair de quinze dias de coma)

" Criar era a razão principal de sua vida". (Cid Moreira, no Jornal Nacional, sobre Nelson Rodrigues)

" Ele é muito puro, ele é muito bom. E por isso mesmo ele é fundamental na formação de qualquer ator. Na formação de qualquer pessoa ligada ao teatro". (Fernanda Montenegro)

" O Nelson Rodrigues foi pra mim, até hoje, duas pessoas: um grande farsante e um grande trágico, verdadeiramente trágico e verdadeiramente farsante. E essas duas pessoas conviviam e se davam muito bem". (Cláudio Melo e Souza - jornalista e escritor)

" Ele era uma ator de si mesmo. Ele interpretava um personagem. Esse personagem era o contestador por excelência. O que tinha horror do aplauso e, no entanto, precisava que desesperadamente o aplaudissem" .  (Cláudio Melo e Souza - jornalista e escritor)

" A primeira peça dele estreada no Municipal foi recebida com indiferença pelo público e pela crítica. Quando ele percebeu que invés de aplausos, tinha conseguido apenas bocejos, ele foi pra casa furioso e em uma semana escreveu Vestido de Noiva" .  (Cláudio Melo e Souza - jornalista e escritor)

" O Nelson trouxe essa brasilidade para o palco, mas uma brasilidade não de caricatura, não de fazer o caipira ou coisa assim, mas a ideia de ser brasileiro" . ( Barbara Heliodora, crítica de teatro)

" Nelson, você deve ter errado. A peça não faz sentido. Não estou entendendo nada". (Sua esposa Elza, sobre a peça Vestido de noiva)

"Esse rapaz, o Nelson, tem um grande talento. A peça é formidável". (Manuel Bandeira, sobre a peça “A mulher sem pecados”).

"Li duas vezes. Achei mais interessante do que ‘A mulher sem pecado’. O que me agrada na peça é que não tem literatice". (Manuel Bandeira, sobre a peça ‘Vestido de noiva’)

"Nelson Rodrigues é poeta. Talvez não faça nem possa fazer versos. Eu sei fazê-los. O que me dana é não ter como ele esse dom divino de dar vida às criaturas da minha imaginação". (Manuel Bandeira)

"Caio de quatro e pasto". (Paulo Mendes Campos, elogiando as peças de Nelson Rodrigues)

Ruy Castro sobre Nelson Rodrigues:

"A úlcera deu-lhe duas outras coisas com as quais ele iria conviver: os analgésicos, que passou a tomar em quantidades industriais (quatro ou  cinco comprimidos de “Melhoral” por dia), sem saber que eles lhe irritavam ainda mais a úlcera __ e os suspensórios. No começo, tinha pudor deles, tanto que os escondia sob suéteres, fizesse frio ou calor. Depois conformou-se. Segurar as calças com o cinto provocava-lhe dor quase intolerável na região da úlcera".

“A ciranda de mortes em suas histórias fazia com que se dissesse, por exemplo, que ele dormia num caixão de defunto, que tirava sonecas entre quatro círios. Essas pessoas ficariam desapontadas se o vissem na intimidade: em casa, de pijama, às nove da noite, ouvindo discos de frevos pela Banda do Corpo de Bombeiros e indo dormir numa vulgar cama Drago com colchão de molas. Da qual só se levantava, no meio da madrugada, para aplacar os pinotes da úlcera com a papa de purê de batata e carne moída”.

FRASES DE NELSON RODRIGUES:


A propósito de aniversário, eu sou uma múmia, me considero uma múmia com todos os achados da múmia. Há uma convivência entre a minha velhice de forma formidável. (Nelson Rodrigues)

Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério quando fica velho. (Nelson Rodrigues)

O único líder juvenil que eu conheço é o Mao-tsé-Tung. (Nelson Rodrigues)

Aos dezoito anos, o sujeito não sabe como se diz a uma mulher boa noite. (Nelson Rodrigues)

Eu era de uma ignorância enciclopédica, em matéria de amor e de tudo o mais. (Nelson Rodrigues)

O nosso querido Otto Lara Resende disse que o homem é triste porque morre. Eu digo não, o homem é triste porque vive. (Nelson Rodrigues)

Eu tenho a maior admiração pelo homem fiel. Eu acho que o homem e a mulher deviam ser fieis. Toda vez que alguém trai alguém, há um choque no universo. (Nelson Rodrigues)

Eu sou velho com os todos os achaques da velhice. (Nelson Rodrigues)

Não acredito no ateu autêntico. (Nelson Rodrigues)

Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava. (Nelson)

Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro. (Nelson)

Todo o desejo, como tal, se frustra com a posse. A única coisa que dura para além da vida e da morte é o amor. (Nelson)

Se a carrocinha leva cachorro, por que não leva crítico? (Nelson Rodrigues)

É mulher? (pergunta que Nelson fazia toda vez que o telefone tocava para ele)

Eu vou a São Paulo dar um tapa nas ancas do Oswald de Andrade. (Nelson sobre as críticas que Oswald de Andrade  publicava a seu respeito)

Nunca na minha vida dei um cascudo nos meus filhos. Sou rigorosamente contra pancada na educação. (em entrevista)

O amor é sincero até quando mente.

Acredito que a maior tragédia do homem ocorreu quando ele separou o amor do sexo. A partir de então, o ser humano passou a fazer muito sexo e nenhum amor.

Se todos me vaiarem se só você me aplaudir, ainda assim, eu me sentirei como um Napoleão coroado. (Nelson, apaixonado, declarando-se a Ana Lúcia, que era casada)

Não ando em comissão, nem em manifesto, nem em maioria, nem em unanimidade. (Nelson dando sua opinião sobre a responsabilidade de resistência em relação aos militares)



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O PODER DAS PALAVRAS

O título deste blog é “Estação da palavra”. Minha intenção era que se chamasse “Estação das palavras”, mas já havia um blog com esse nome. Tudo bem, eu queria, na verdade, qualquer coisa que contivesse o vocábulo “palavra”, pois é disso que o blog trata __ literatura, poesia, gramática, linguagem. Pensando nisso, fiquei contemplativa: as palavras têm poder, não conseguimos viver sem elas, pois fazem parte da gente e estamos sempre nos articulando entre dois movimentos: nos exprimir e compreender o discurso do outro. Mas qual seria o tal poder das palavras?
Em minhas pesquisas, encontrei o pai da psicanálise refletindo sobre esse tema. Em suas “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, Freud reconhece o poder das palavras: por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero; por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos; por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia seus julgamentos e decisões. Palavras despertam afetos e são o meio universal de os homens influenciarem uns aos outros. Freud usava a linguagem como ferramenta libertadora de repressões. Por meio da fala, o paciente deixava fluir reminiscências psíquicas de modo que seus traumas vinham à tona e podiam ser encarados.
Até a Bíblia reconhece o poder das palavras. O livro de provérbios esclarece: “uma resposta branda aplaca o furor, uma palavra dura excita a cólera” (Prov-15-1).  O profeta Natã pôs esse provérbio estrategicamente à risca para conscientizar o rei Davi sobre seu pecado com a mulher de Urias.  Para conseguir convencer o rei do seu mau proceder, Natã narrou uma comovente historinha que envolveu emocionalmente o rei. Indignado com o personagem mau, Davi o decretou como digno de morte: “Pela vida do senhor! O homem que fez isso merece a morte. Ele pagará quatro vezes a ovelha por ter feito uma coisa destas, sem ter pena.”  Natã triunfante desfechou a catarse dramática: “Este homem és tu...!”. O rei Davi havia sido vítima de uma alegoria de aparência singela, porém persuasivamente contada. Natã conseguiu assim acusar o rei, sem perder o próprio pescoço. 
O poder encantatório das palavras é também o que salva Scheerazade, em As Mil e uma Noites. Toda noite ela contava histórias que acendiam a imaginação do seu ouvinte, que poupava-lhe a vida para que aquelas histórias continuassem desfilando em sua imaginação.
Nem sempre é verdadeiro o provérbio que diz que meia palavra basta. Às vezes uma palavra é usada para esconder outras, maquiando, omitindo ou dissimulando uma realidade. É o que acontece quando um político é pego em flagrante em situação de improbidade: ele se defende negando ou minimizando o fato de uma forma que acaba “saindo pela tangente”.         
Usar as palavras para confundir não é tão difícil, visto a própria natureza da linguagem humana. Segundo o linguista Ferdinand Saussure, os signos (palavras) são arbitrários, ou seja, não passam de uma invenção humana usada para viabilizar a comunicação. Sendo assim, a palavra possui grande teor de ambiguidade natural. Por isso, a frase “está frio aqui”, pode está informando a temperatura ou pode ser um pedido para alguém fechar a janela.
Escritores como Machado de Assis, usavam a ambiguidade da linguagem para criar histórias que deixavam os leitores na missão de descobrir o que estava por trás das atitudes dos personagens. Ao descrever o olhar de uma personagem, Machado não pintava apenas sua aparência, entremostrava detalhes cruciais para o entendimento do comportamento dela.
Em advocacia, sabe-se o poder que uma palavra pode ter para o desfecho de um processo. Da mesma forma que uma roupa confere a uma pessoa uma imagem positiva ou negativa, a forma como uma pessoa apresenta-se ou é apresentada por seu advogado é capaz de construir um perfil de aparente inocência ou de aparente perfídia.
Não é à toa que em uma entrevista de emprego as pessoas costumam ficar nervosas. Serão julgadas com base naquilo que falarem e na forma como usarem suas palavras. Basta abrir a boca e já será possível medir-lhes o grau de instrução, deduzir-lhe a origem geográfica e conhecer uma pouco de sua personalidade e estado emocional em que se encontram.
Aliás, ninguém quer trabalhar ao lado de pessoas que vivem reclamando da vida e propagando frases de medo e insegurança. A cada dia aumenta o filão dos livros e conferências de autoajuda destinados aos que procuram soluções para aumentar suas vendas, conseguir promoções no serviço ou simplesmente atrair bons fluidos em sua vida. E é através da força das palavras que esses autores tentam mostrar a seus interlocutores como mudar o foco dos pensamentos, superar os obstáculos, dá vazão ao seu processo criativo, enfim, direcionar a energia para as coisas desejáveis.
O apropriado manuseio das palavras não está restrito a um determinado segmento social. Qualquer aluno de cursinho sabe que por mais que consiga destrinchar os mais árduos problemas de matemática não conseguirá ser aprovado a menos que desenvolva uma boa prova de redação. Na modalidade escrita, sua linguagem verbal será mais exigida, qualquer infração à gramática, que na oralidade é automaticamente relevada, na folha de papel torna-se um pequeno entrave rumo à escrita de um texto coeso e coerente.
Mas as palavras guardam grandes mistérios, nenhuma gramática consegue aprisioná-las. Por isso, um repentista encanta seu público; pela espontaneidade de sua fala e pelo aspecto cômico das histórias que inventa. Da mesma forma, uma gíria ou um simples bordão criado na internet ou nas novelas conseguem se disseminar como praga no milharal e chamam atenção a cada vez que são pronunciados.
É na seara da poesia, entretanto, que o fascínio das palavras emerge poderosamente. No poema “O lutador”, Carlos Drummond de Andrade revela que luta com palavras e tenta enlaçá-las, capturando sua magia, viço e esplendor. Nessa luta, nem sempre consegue a vitória almejada, mas não é capaz de fugir desse embate, está viciado nesse duelo diário que consiste em tentar apanhá-las, no seu dizer, “acariciá-las”, provar sua essência, sentir-lhes a textura sonora, o travo peculiar que as envolve.
Podemos dizer a Drummond que o leitor também se sente dominado pela dimensão poética das palavras pois é chamado a sonhar, a cavalgar por universos oníricos que somente a fantasia é capaz de edificar. Nessa hora, a palavra se despe de sua função informativa e lógica e conduz ao devaneio saudável, aquele que permite viajar nos limites dos sentidos, abandonando-se às sensações, sem contudo, soltar as amarras da lucidez.
A palavra tem poder criador e o próprio pensamento é tecido por elas. Segundo a Bíblia, Deus criou o mundo pela palavra. Ela teria sido o abre-te Sésamo divino para trazer as coisas à existência. Pela palavra, os mitos são repassados, o cientista promove suas teses e a História da humanidade é trançada para a posteridade.  A criança somente cruza o mundo natural e adentra verdadeiramente no mundo humano, formado por símbolos e/ou signos, quando aprende a falar e, no caso da cultura contemporânea, com o devido processo de letramento.
As palavras manejadas de forma inteligível e elegante fornecem status aos seus emissores e podem permitir um trânsito social mais desembaraçado. É isso que é possível notar em Vidas secas, de Graciliano Ramos. Nesse romance, o autor alagoano concebe Fabiano, um personagem que teve sua capacidade comunicativa cerceada pela miséria e pelo ambiente rude. Devido a essa limitação, não apenas seu potencial de expressão ficou comprometido, como também sua capacidade de demonstrar afeto. Assim, o relacionamento entre ele, sua esposa e seus filhos era mantido mais à base de gestos e muxoxos, ficando os sentimentos presos, tolhidos, o que sem dúvida, tornava suas vidas tão secas quanto o solo pedregoso em que viviam.
Clarice Lispector é outra escritora que usa metalinguagem como temática e força motriz de sua obra. Para ela, as palavras não bastam para alcançar o que deseja: ela aspira ao inexprimível. Mas até para isso, é forçoso usar as palavras. E ela as exercita com tanta maestria que seu discurso sedutor é, e sempre será, objeto de inúmeros estudos interpretativos. Assim como Clarice, inúmeros outros artistas da palavra vêm se debruçando sobre a própria linguagem a fim de extrair-lhe sua mais alta carga de densidade evocatória. Não estão buscando um enfeite textual, estão criando linguagem apaixonada, capaz de despertar sensibilidades, iluminar olhares, instigar emoções.

E por falar em palavras, leia a seguir, o texto O vendedor de palavras, de Fábio Reynol.

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma ideia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.

Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!".

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinquenta curiosos parasse e perguntasse.

— O que o senhor está vendendo?

— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinquenta centavos como diz a placa.

— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.

— O senhor sabe o significado de histriônico?

— Não.

— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.

— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.

— O senhor tem dicionário em casa?

— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.

— O senhor estava indo à biblioteca?

— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.

— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinquenta centavos de real!

— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?

— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.

— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?

— O senhor conhece Nélida Piñon?

— Não.

— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.

— E por que o senhor não vende livros?

— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.

— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.

— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.

— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...

— Jactância.

— Pegar um livro velho...

— Alfarrábio.

— O senhor me interrompe!

— Profaço.

— Está me enrolando, não é?

— Tergiversando.

— Quanta lenga-lenga...

— Ambages.

— Ambages?

— Pode ser também evasivas.

— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!

— Pusilânime.

— O senhor é engraçadinho, não?

— Finalmente chegamos: histriônico!

— Adeus.

— Ei! Vai embora sem pagar?

— Tome seus cinquenta centavos.

— São três reais e cinquenta.

— Como é?

— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.

— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?

— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?

— Tem troco para cinco?

E-Mail: freynol@gmail.com

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

MONTEIRO LOBATO E SUAS FALAS

Segundo a Veja desta semana, os livros de Monteiro Lobato, apesar de considerados racistas pelo Conselho Nacional de Educação em 2010, não passaram a ser rejeitados por negros. Pelo contrário, Lobato continua em primeiro lugar na lista de autores brasileiros preferidos dos entrevistados. É isso que revela uma pesquisa feita pela Biblioteca Nacional com 800 negros em bibliotecas públicas do país. Nem Jorge Amado e Paulo Coelho suplantaram o criador de Emília.

Mas ao dar uma olhada nas declarações de Lobato é possível encontrar afirmações no mínimo polêmicas. Um exemplo é essa que ele fez após uma estada de quatro anos nos EUA:

"Eu por mim, não sairia mais daqui, porque o Brasil torna-se grotesco visto de longe. Infelizmente, a família é um cordão umbilical que me prende a essa cataplasma. Só agora meço em extensão o atraso infinito, e a estupidez maior ainda, da nossa gente. Somos África pura" *.
* Lobato, Monteiro. Cartas Escolhidas, tomo I, 19927, p. 204.

Que bomba, heim? mas tenha-se em mente que o país nessa época era menos desenvolvido que hoje, para usar um eufemismo para atraso. Então vamos dar um desconto para Lobato.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Giovanni Boccacio e seu DECAMERÃO

A sensacional obra de Giovanni Boccacio (1313-1375), Decamerão, é uma obra-prima da literatura italiana composta de cem novelas, todas ambientadas no cenário da Idade Média marcada pela peste negra. São histórias engraçadas, mirabolantes, divertidas e, muitas vezes eróticas. Mas o objetivo de Boccacio não era nada vulgar, a obra era também uma forma de denunciar a corrupção do clero católico da época, chegando a figurar nas páginas do Índex Librorum Prohibitorum, ou seja, a relação de livros condenados pela Inquisição à fogueira. Para nossa sorte, exemplares da obra escaparam ilesos ao destino ígneo. A importância de Boccacio na literatura mundial é indiscutível, ele influenciou autores como Voltaire, Molière, Shakespeare, Jonathan Swift e Cervantes. Seu Decamerão  teve algumas histórias filmadas pelo legendário Pier Paolo Pasolini e ganhou adaptação na rede Globo.
A décima novela conta a história de uma jovem de catorze anos, chamada Alibeque, que era muito ingênua e ouvira falar que a melhor maneira de servir a Deus era mandar o diabo para o inferno. Curiosa e disposta a aprender como se fazia isso, fugiu de casa e foi para o deserto para procurar um eremita que lhe ensinasse tal coisa. Depois de passar por vários eremitas, que não puderam lhe explicar esse mistério, finalmente ela chega na tenda de um homem tido por muito santo, um eremita chamado Rústico. O religioso tenta resistir a tentação que a jovem representa mas não consegue, então acaba ensinando-a como se "manda o diabo para o inferno". Veja um fragmento dessa história.

Rústico despiu-se das poucas vestes que trazia; ficou completamente nu; a jovenzinha fez o mesmo; o eremita ficou de joelhos, como se estivesse pronto para rezar; à frente, ordenou que também ela se colocasse de joelhos. Ficando os dois nessa posição, Rústico sentiu que atingira o clímax de seu desejo, vendo-a tão linda; desse modo, veio-lhe a ressurreição da carne. Alibeque contemplou aquela ressurreição; e, maravilhada com o fato, disse:
__ Rústico, que é essa coisa que vejo em você, que tanto se ergue para fora, e que eu não possuo?
__ Oh! Minha filha! Isto é o diabo, do qual lhe falei; e veja você, agora; ele está-me trazendo grande aborrecimento; a tal ponto que não consigo tolerá-lo.
A moça, então exclamou:
__ Oh! Deus seja louvado, pois vejo que estou em condições melhores do que você, visto que não tenho diabo.
Rústico comentou:
__ Você diz uma verdade; porém, você tem outra coisa, que eu não possuo; e você a tem em troca disto.
Perguntou Alibeque:
__ E o que é?
A isto explicou Rústico:
__ O que tem você é o inferno; e digo-lhe que creio tê-la enviado Deus para mim, aqui, para a salvação de minha alma. Tão grande aborrecimento me causa esse diabo, mas, se você tiver compaixão de mim, e consentir que eu torne a mandar este diabo ao inferno, você me dará grande consolo, e prestará grande prazer a serviço de Deus; e isto sucederá, se é certo que você veio para este deserto para fazer aquilo que disse que veio fazer.
De boa fé retrucou a jovem:
__ Oh, Padre meu! Já que tenho o inferno, seja feito assim, quando for de sua vontade.
Disse então Rústico:
__ Minha filha, seja você abençoada! Vamos, portanto, colocar o diabo no inferno para que, depois, ele me deixe em sossego.
Assim falando, Rústico levou a jovem para um de seus pequenos leitos, onde lhe ensinou a maneira como devia estar para encerra o maldito de Deus. A jovenzinha, que jamais pusera nenhum diabo naquele inferno, sofreu, da primeira vez, alguns aborrecimentos; e assim, disse a Rústico:
__ Por certo meu padre, esse diabo será coisa muito ruim, deve mesmo ser inimigo de Deus; pois, mesmo colocando no inferno, além de causar mal aos outros, dói quando é reenviado lá para dentro.
Rústico acalmou-a:
__ Minha filha, isto não será sempre assim.
E, para evitar que a coisa se repetisse, tornou a pôr o diabo no inferno por mais seis vezes, antes de se afastarem do pequeno leito; da última vez, toda a soberba se lhe estufou da cabeça; tanto que o diabo, então, ficou de bom grado em paz. Retornando-lhe, contudo a soberba várias vezes depois disto, e continuando a jovem obediente à missão de lha dissipar outra vez, aconteceu que aquilo começou a agradar e, então disse ela a Rústico:
__ Estou vendo muito bem que aqueles valorosos homens de Capsa diziam a verdade, ao esclarecerem que era coisa suave o servir a Deus; certamente, não me lembro de ter nunca feito outra coisa que tanto prazer e tanto deleite me desse, como a tarefa de tornar a pôr o diabo no inferno. Por esta razão, digo-lhe que é tola toda pessoa que se entregue a outros serviços que não sejam os de servir a Deus.

A  história continua e o religioso já não dá conta de satisfazer a vontade da jovem de “servir” a Deus. Ele alimentava-se de raízes de ervas e não tinha mais energia para tanto ardor da moça. Entretanto, um fato aconteceu: a família dela morre num incêndio e um jovem de nome Neerbal encontra Alibeque para dizer-lhe que ela é herdeira de um fortuna mas terá que casar-se com ele. Alibeque fica inconformada de ter de deixar a nobre missão de mandar o diabo ao inferno com o eremita. De volta à sua terra, as mulheres rodeiam a jovem e querem saber o modo como se servia a Deus no deserto.

(...) e ela respondeu que servia mandando de volta o diabo ao inferno, e que, por isso, Neerbal cometera um enorme pecado ao tirá-la desse serviço. Indagaram as mulheres:
__ E de que modo é que se remete de volta o diabo ao inferno?
Um pouco com palavras, outro tanto com gestos, a jovem indicou-lhes como. As mulheres, então, prorromperam em gargalhadas; até parece que ainda estão rindo. E disseram:
__ Não fique triste por isso, menina; não se entristeça; essa coisa se faz muito bem também nessas bandas; Neerbal, juntamente com você, servirá perfeitamente a Deus nosso Senhor.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

INCENTIVO À LEITURA

Como incentivar a leitura na escola? Veja um caso interessante.

(matéria do G1 veiculada em 29/12/2011)

Criança de 11 anos leu 224 livros em sete meses em MT

Waldir Chagas Sidnei de Souza, de 11 anos, foi o campeão de um projeto desenvolvido pela escola municipal rural de São Félix do Araguaia, a 1.159 quilômetros de Cuiabá, ao ler 224 livros em apenas sete meses. “Foi fácil ler todos estes livros porque eu gosto de ler. Mas não imaginei que eu fosse ganhar. No começo eu não estava muito interessado não”, disse ao G1 o menino, que concluiu a 5ª série. O projeto tinha como objetivo incentivar a leitura na escola.

A professora de português Renilda das Chagas disse ao G1 que dentre as obras que fizeram parte do dia a dia das crianças estão literatura infantil, literatura juvenil, gibis e alguns livros mais teóricos. “Não eram livros grossos e na competição os gibis contavam como livros", explicou a professora. Waldir leu 274 obras no total, sendo que 224 eram livros e 50 eram gibis. "O projeto 'Leituras e Resumos' foi desenvolvido com os coordenadores da escola, juntamente com os pais, para motivar as crianças a ler como complemento à disciplina de língua portuguesa”, explicou Renilda.

Waldir afirma ainda que suas obras preferidas são as infantis, em especial os gibis da Turma da Mônica, de Maurício de Souza, no entanto, pontua a vontade de ler alguma coisa sobre aeronáutica, área que sonha atuar no futuro. “Gosto mais de ler gibi, livros que têm ilustrações e poemas. Quando eu crescer quero ser piloto da aeronáutica. Mas ainda não achei nenhum [livro] sobre isso”, destacou o menino. Para a mãe de Waldir, Renilda das Chagas, que é professora do menino e desenvolveu o projeto na escola Nova Suia, o sonho de ser piloto pode estar associado à vontade de um dia andar de avião. “Ele quer ser piloto de avião e acho que o sonho se deve mais pelas coisas que ele vê na televisão, porque ele nunca andou de avião”, disse a mãe.
“Continuo lendo. Trouxe 10 livros da escola para ler em casa nessas férias. "Waldir Chagas, 11 anos. A mãe do pequeno leitor explica que para que não houvesse parcialidade na hora da verificação dos vencedores, outras professores contaram a quantidade de resumos que cada criança havia escrito. “No início, quando os alunos iam trazendo os resumos dos livros que eles liam, nós nos sentávamos para corrigir, ler os resumos, e eu marcava quantos livros eles estavam lendo. Eles não tinham esse controle. Era uma forma de incentivar, não pela quantidade, mas pela qualidade. Depois, quando os coordenadores, professores e eu vimos a quantidade de livros que eles estavam lendo, foi bom demais ver que Waldir tinha lido muitas obras”, disse a professora ao G1.

Renilda disse ainda que não esperava que o filho seria o ganhador do concurso. “Waldir desde pequenino gostava de ler, mas depois que lançou o concurso eu vi que ele desenvolveu bastante a leitura. Até agora, nas férias, ele trouxe livro para ler em casa. Quando falaram que o Waldir ganhou, eu fiquei alegre demais, fiquei feliz demais. Não tenho nem palavras para falar”, disse, emocionada.

Para Waldir, o concurso não foi sinônimo apenas de premiação e reconhecimento. O menino de 11 anos garante que adquiriu um novo hábito com a competição e destaca ainda que a biblioteca da escola ganhou um acervo de obras muito interessante. “Antes da competição eu lia um pouco, eram mais livros comuns, porque eu não tinha gibis. Agora estou aproveitando porque está cheio de gibi e outros livros na escola”, relatou o garoto.
Para as férias que duram até maio, já que a Escola Nova Suia fica fechada durante o período de chuvas, Waldir reservou alguns livros da biblioteca e levou para casa. “Agora eu continuo lendo. Trouxe 10 livros da escola para ler em casa nessas férias. Mas vou brincar de bola também”, afirmou o garoto.

Leituras e Resumos

Como prêmio, Waldir ganhou um telefone celular. A professora Renilda das Chagas disse que a ideia do projeto de leitura para as crianças de Primeiro Grau surgiu por meio da observação dos alunos nas aulas. “Eu vi que eles estavam com dificuldade na leitura. Tem livros na escola, mas eu vi que eles não estavam interessados. Então o projeto veio para estimular a leitura deles e a escrita dos resumos foi mesmo para incentivar que eles lessem. Com o projeto, ganhamos livros da Secretaria Municipal de Educação e de outras pessoas”, destacou.

Ainda segundo Renilda, os três primeiros colocados no concurso levaram para casa prêmios doados pela coordenação do colégio. Waldir ganhou um telefone celular, Antonny Pires de Mendonça, que ficou em segundo colocado, com 82 livros, ganhou um aparelho de rádio. Já Jaime Caldeira de Souza, terceiro colocado, com 76 livros, ganhou uma bolsa.