sábado, 29 de outubro de 2011

GINCANA LITERÁRIA PARA SALA DE AULA

01. No romance Iracema, de José de Alencar, o filho da índia com o português Martim é batizado de:
a) Moacir             b) Poti            c) Jacaúna                 d) Totonho

02. No livro O ateneu, Sérgio era apaixonado pela:
a)  faxineira do colégio        b)  esposa do diretor       c) enfermeira da escola     d) colega de classe

03. No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, Brás dedica seu livro:
a) ao pai        b) à ex-amante     c) ao verme        d) ao padrinho

04. No romance Dom Casmurro, Escobar morre:
a) num incêndio        b) alvejado por tiros        c) afogado no mar          d) febre tifoide

05. A epopeia “Os Lusíadas” é composta por versos de quantas sílabas?
a) doze                b) cinco              c) sete            d) dez

06. Em “Memórias de um sargento de milícia”, Leonardo Pataca conquistou Maria das Hortaliças através:
a) de um beijo            b) uma pisadela e um beliscão       c) um elogio        d) uma joia

07. Em “O cortiço”, o personagem Jerônimo se torna viciado em:
a) maconha            b) cachaça          c) ópio           d) remédios para dormir

08. O primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras foi:
a) Álvares de Azevedo         b) José de Alencar       c) Rui Barbosa      d) Machado de Assis

09. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Brás não quis compromisso amoroso com Eugênia porque ela era:
a) gaga          b) coxa          c) cega          d) analfabeta e pobre

10. José Dias, personagem de Dom Casmurro tinha mania:
a) de roer as unhas        b) de falar palavrão       c) de falar superlativos    d) de bocejar demais

11. O livro “Os sertões” está estruturado em três capítulos intitulados:
a) A Terra, O Homem e A luta
b) A Terra, O céu e O Inferno
c) A Terra, A ilha e O mar
d) A Terra, o Suor e O sangue

12. O personagem da literatura brasileira caracterizado por um nacionalismo exacerbado é:
a) Bentinho          b) João Romão       c) Policarpo Quaresma         d) Cirino

13. No romance Inocência, a personagem homônima é homenageada por um cientista que escolhe um bicho para ter o nome dela. Que bicho é esse?
a) um pássaro            b) uma cobra           c) borboleta          d) um onça

14. A obra “Macunaíma” é classificada como:
a) uma rapsódia         b) um romance        c) um conto         d) um poema épico

15. Quem escreveu “Brás, Bexiga e Barra Funda” foi:
a) Antônio Alcântara Machado           b) Joaquim Manoel de Macedo     c) José de Alencar             d) Oswald de Andrade

16. Rachel de Queiroz escreveu “O Quinze”:
a) em uma máquina de datilografia       b) na caderneta de compras da feira    c) de lápis   d) de caneta-tinteiro

17. Em “Vidas Secas”, o sonho de Sinhá Vitória, esposa de Fabiano, era ter:
a) um espelho      b) uma cama igual do Seu Tomás da Bolandeira    c) muito dinheiro
d) um vestido vermelho

18. Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade de:
a) Três Corações       b) Ouro Preto         c) Itabira          d) Mariana

19. Manuel Bandeira sofria de qual doença:
a) câncer         b) tuberculose          c) diabetes       d) lúpus

20. A profissão de Guimarães Rosa foi:
a) médico          b) político      c) professor        d) juiz

21. Em “Grandes Sertão: Veredas”, Riobaldo tem como apelido:
a) Tatarana           b) Gavião         c) Raposa do mato       d) lagarto de aço

22. Em 1967, Clarice Lispector foi vítima:
a) de um acidente automobilístico      b) de um assalto       c) de pneumonia     d) de um incêndio em sua casa

23. Em “A paixão segundo G.H”, a personagem G.H encontra sua essência quando:
a) vê uma barata esmagada
b) vê uma um búfalo no zoológico
c) vê uma ferida num mendigo
d) assiste uma festa de aniversário

24. O último livro de Clarice Lispector foi:
a) O lustre
b) A maçã no escuro
c) A hora da estrela
d) A paixão segundo G.H

25. Parodiou a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias:
a) José Paulo Paes           b) Paulo Coelho          c) Cora Coralina      d) Cecília Meireles

26. O heterônimo de Fernando Pessoa que rejeita o Cristianismo, professando um paganismo absoluto é:
a) Alberto Caeiro            b) Álvaro de Campos         c) Ricardo Reis        d) Bernardo Soares

27. Dono de uma obra de linguagem inovadora e geradora de novas palavras, misturada a elementos sertanejos:
a) Clarice Lispector           b) Guimarães Rosa         c) João Cabral de Melo Neto
d) Jorge Amado

28. Na Semanada de Arte Moderna, em 1922, ele foi vaiado ao ler o poema”A escrava que não era Isaura”:
a) Manuel Bandeira            b) Mário Quintana          c) Mário de Andrade        d) Alcântara Machado

29. Entrou para a literatura como escritor neo-realista, tendo escrito, por exemplo, Terras do sem fim:
a) João Ubaldo Ribeiro      b) Érico Veríssimo        c) Jorge Amado         d) Rubem Fonseca

30. Gigante Adamastor é personagem do livro:
a) O auto da barca do inferno         b) Mensagem         c) Os lusíadas        d) O primo Basílio

31. “Olhos de ressaca” é uma expressão que se refere aos olhos de:
a) Rita Baiana           b) Gabriela, cravo e canela        c) Maria Moura      d) Capitu

32. Egotismo é o sentimento excessivo da própria personalidade. A literatura mais egótica é:
a) Romantismo         b) Realismo          c) Parnasianismo         d) Modernismo

33. Um dos livros mais elogiados de Carlos Drummond de Andrade foi:
a) A Rosa do povo        b) Macário       c) Primeiros Cantos        d) Libertinagem

34. O grande amor da vida de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis foi:
a) Marcela          b) Eugênia         c) Nhá-Loló         d) Virgília

35. Publicou um artigo contra Anita Malfati, em 1917, no jornal O Estado de São Paulo:
a) Mário de Andrade       b) Oswald de Andrade      c) Monteiro Lobato    d) Manuel Bandeira

36. O desejo de morrer e a sentimentalidade doentia são características da poesia do autor de Lira dos vinte anos. Trata-se de:
a) Gonçalves Dias        b) Castro Alves     c) Gonçalves de Magalhães      d) Casimiro de Abreu               e) Álvares de Azevedo

37. (UnB-Distrito Federal) Marque a opção que traz a obra considerada marco inicial do Romantismo no Brasil:  a) Iracema      b) Marília de Dirceu     c) O guarani      d) Suspiros poéticos e saudades   

38. Apresenta características ora realistas, ora naturalistas, ora impressionistas:
a) O Ateneu         b) Dom Casmurro         c) O mulato         d) Bom crioulo

39. A influência de Darwin é constante em qual movimento literário?
a) Barroco                b) Romantismo           c) Arcadismo          d) Naturalismo

40. Poeta conhecido como “Cisne negro”:
a) Cruz e Sousa         b) Augusto dos Anjos       c) Olavo Bilac       d) Manuel Bandeira

41. José de Alencar era filho de um:
a) advogado         b) padre          c) professor        d) jornalista


42. Autor da frase “Um país é feito de homens e livros”:
a) Machado de Assis          b) José de Alencar         c) Graciliano Ramos      d) Monteiro Lobato

43. Fato curioso da vida de Carlos Drummond de Andrade:
a) foi expulso da escola onde estudava, após um desentendimento com o professor.
b) foi demitido do primeiro emprego, após uma discussão com o chefe.
c) foi expulso da casa pelos pais, após uma ressaca.
d) foi expulso da igreja onde frequentava.

44. Castro Alves foi influenciado pelo poeta:
a) Victor Hugo          b) Rimbaud         c) Verlaine         d) Mallarme

45. Engenheiro militar, combatente da guerra do Paraguai e autor de “A retirada da Laguna”:
a) Franklin Távora        b) visconde de Taunay        c) Euclides da Cunha       d) Machado de Assis

46. História da luta de um padre contra os instintos, em plena selva:
a) O missionário        b) O crime do padre Amaro       c) O seminarista     d) O Ateneu

47. História centrada no homossexualismo:
a) O primo Basílio        b) Memórias Póstumas de Brás Cubas       c) Bom crioulo      d) A carne

48. História de um menino sensível em um colégio interno, onde aprende a vida de forma perturbadora:
a) Dom Casmurro           b) São Bernardo         c) O Ateneu          d) O guarani

49. Escreveu um único livro, “Eu”. Sua escrita aproveita o vocabulário científico, apresenta poemas pessimistas e agressivos, com palavras como célula, escarro, embrião, ferida, micróbio:
a) Olavo Bilac         b) Manuel Bandeira           c) Mário Quintana        d) Augusto dos Anjos

50. Em Memórias do Cárcere (1953), conta a experiência da prisão que sofreu de 1935 a 1936:
a) Euclides da Cunha         b) Jorge Amado        c) Graciliano Ramos       d) Érico Veríssimo



GABARITO:



01.  A
02.  B
03.  C
04.  C
05.  D
06.  B
07.  B
08.  D
09.  B
10.  C
11.  A
12.  C
13.  C
14.  A
15.  A
16.  C
17.  B
18.  C
19.  B
20.  A
21.  A
22.  D
23.  A
24.  C
25.  A
26.  A
27.  B
28.  C
29.  C
30.  C
31.  D
32.  A
33.  A
34.  A
35.  C
36.  E
37.  D
38.  A
39.  D
40.  A
41.  B
42.  D
43.  A
44.  A
45.  B
46.  A
47.  C
48.  C
49.  D
50.  C




segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SIMBOLISMO: ATIVIDADE COM POEMA DE CRUZ E SOUSA

Cárcere das almas      (Cruz e Sousa)

Ah! Toda alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre grades
Do calabouço, olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas,
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da dor do calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!

Exercício

  1. Cite algumas metáforas do poema.

2. A participação emocional comparece no poema de forma mais acentuada através de qual classe gramatical e de que recurso de pontuação?

  1. Dê exemplos de rima rica presentes no poema.

  1. Qual o tipo de composição poética de “Cárcere das almas”? Esse tipo de poema está adequado ao tema?

  1. Quanto à métrica, que tipos de versos temos?

  1. Sabendo que anástrofe é uma inversão da ordem dos termos ligados por uma preposição, que versos são exemplos de anástrofes?

  1. Comente sobre o conteúdo do poema.

RESPOSTAS:

1. Alma presa, alma soluçando, calabouço, tudo se veste de igual grandeza, alma sonha, alma rasga imortalidades, almas presas, mudas e fechadas, silêncio solitário, portas do Mistério.
2. A classe gramatical é a Interjeição e o recurso de pontuação é a exclamação.
3.  Presa/natureza; funéreo/mistério;  graves/chaves
4. Soneto; está adequado ao tema, pois é um tipo de poema de forma fixa e, portanto, está de acordo com o clima de prisão, de limitação que marca o poema.
5. Versos decassílabos.
6. Que chaveiro do Céu possui as chaves
    Para abrir-vos as portas do Mistério?!  
Na ordem direta seria: Que chaveiro possui as chaves do Céu
7. Todas as almas encontram-se presas, isto é, em situação de angústia e desalento. Elas sonham com a plenitude da natureza, com liberdades e imortalidades. Contemplam-se a si mesmas e se  perguntam quem possui as chaves para libertá-las da condição limitadora em que se encontram. O poema possui uma concepção mística da vida, pois transmite a ideia de que nenhuma alma está satisfeita com a vida que leva pelo fato de a  matéria se tornar uma prisão para elas. No entanto, isso não é dito explicitamente, é sugerido através de metáforas e símbolos, num processo de associação de ideias. O poema mergulha na emoção, intuição e fantasia, pautando-se por um tom altamente poético e o resultado é uma poesia que não admite uma interpretação lógica, uma vez que se fundamenta no aspecto não conceitual da linguagem.

Perguntas e respostas:  autora do blog Estaçaodapalavra.
Livro que ajudou como fonte de estudo e pesquisa:

Estilos de Época da literatura brasileira.
Autor: Domício Proença Filho.
Editora Ática.


domingo, 21 de agosto de 2011

MONTEIRO LOBATO E SEU CONTO "NEGRINHA"




                                 TRABALHANDO: LEITURA/ REDAÇÃO/ INTERTEXTUALIADE

Proposta 1: Leia o conto abaixo e produza uma narração recriando a história  de negrinha, de modo a dar-lhe outro final.

Proposta 2: Produza um texto dissertativo sobre a condição do negro no Brasil, relacionando o texto “Negrinha” com o capitulo 20 do livro “1808”.


Negrinha ( Monteiro Lobato)

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia. Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
— Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
— Cale a boca, diabo!
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a ideia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
— Sentadinha aí, e bico, hein?
Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
— Braços cruzados, já, diabo!
Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.
Que ideia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...
O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:
— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...
Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!
Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.
Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.
— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.
Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.
— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.
— Traga um ovo.
Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
— Venha cá!
Negrinha aproximou-se.
— Abra a boca!
Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:
— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!
— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.
— Sim, mas cansa...
— Quem dá aos pobres empresta a Deus.
A boa senhora suspirou resignadamente.
— Inda é o que vale...
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.
Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.
Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.
Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?
Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.
— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.
— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco. Chegaram as malas e logo:
— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas. Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...
Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
— É feita?... — perguntou, extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
— Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca: — Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena. Era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu. Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada. Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada. Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
Mas, imóvel, sem rufar as asas. Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...
E tudo se esvaiu em trevas. Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...
E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
— “Como era boa para um cocre!...”

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

TRABALHANDO A OBRA O CRIME DO PADRE AMARO, DE EÇA DE QUEIRÓS

FILME: O CRIME DO PADRE AMARO

Título original: (El Crimen del Padre Amaro)
Lançamento: 2002 (México)
Direção: Carlos Carrera
Atores: Gael García Berna,  Ana Claudia Talancón, Sancho Gracia.
Duração: 118 min
Gênero: Drama

Passo a passo do filme (por: Belinha)

1)      O recém ordenado Pe. Amaro chega na cidade de Los Reyes para assumir seu lugar na paróquia antes de continuar seus estudos em Roma.
2)      Uma linda devota chamada Amélia diz a Amaro no confessionário que é muito sensual.
3)      Amaro descobre a relação amorosa entre Padre Benito, seu superior, e Sanjuaneira, mãe de Amélia.
4)      Amaro e os outros padres discutem a favor do fim do celibato.
5)      Pe. Benito acusa pe. Natálio de ajudar guerrilheiros e  Pe. Natálio diz que não são guerrilheiros, são trabalhadores rurais obrigados pelos traficantes a plantar papoula. Ele também acusa Pe. Benito de lavar dinheiro dos traficantes e do prefeito através da construção de um centro hospitalar.
6)      Pe. Benito vai ao batizado da filha do traficante Dom Chato.
7)      As fotos da amizade entre o pe. Benito e o traficante são roubadas por um camponês da comunidade de pe. Natálio e vão parar nas mãos de Rubem, que as publica.
8)      Amélia termina com Rubem por causa do artigo e das fotos contra a igreja.
9)      Amaro, a pedido do bispo, publica um desmentido da igreja e exige a demissão de Rubem para o dono do jornal.
10)  Amaro e Amélia beijam-se na igreja.
11)  Amaro diz ao sineiro que precisa de um quarto vai preparar Amélia para ser freira.
12)  Amaro e Amélia encontram-se e fazem amor no quarto ao lado de Getsêmani, a filha do sineiro.
13)   Amélia sugere que Amaro deixe o sacerdócio e ele recusa.
14)  O sineiro denuncia as relações de Amaro e Amélia para pe. Benito.
15)   Pe. Benito vai até a casa do sineiro e com ajuda de Getsêmani descobre a verdade sobre Amaro e Amélia.
16)   Pe. Benito recrimina Amaro por suas relações com Amélia.
17)  Amélia engravida.
18)  Pe. Benito passa mal e é socorrido pelo traficante.
19)   Amaro propõe que Amélia reate com Rubem para que este assuma a criança, ela o procura mas ele não a quer mais.
20)   Amaro leva a pe. Natálio a excomunhão ordenada pelo bispo.
21)   Com a ajuda da hipócrita beata Dionísia, Amaro leva Amélia para fazer um aborto em uma clínica clandestina.
22)  Amélia tem uma hemorragia e falece.
23)   Amaro celebra a missa pela morte de Amélia e deixa a cidade pensar que Ruben a engravidou.

NO LIVRO É DIFERENTE:

1)      Não existe a problemática da drogas e da teologia da libertação.
2)      Pe. Benito é, na verdade, o cônego Dias. Rubem é João Eduardo. Pe. Natálio é o abade Ferrão.
3)      Dionísia trabalha na paróquia.
4)      Amaro hospeda-se na casa de Amélia e só depois vai morar na paróquia.
5)      João Eduardo não se recusa ficar com Amélia. Apenas não é localizado por ela.
6)      Amaro contrata uma mulher para matar o próprio filho.
7)      Cônego Dias é conivente com a relação de Amaro com Amélia.
8)      Há mais personagens na história.

EXERCÍCIO SOBRE O FILME

  1. Quais os símbolos da igreja católica que são profanados, dessacralizados?

  1. Qual a personagem que representa a beata fanática e de comportamento hipócrita?

  1. As personagens realistas possuem defeitos e qualidades, sendo assim, Amaro não era de todo mau ou insensível, sendo até capaz de um gesto de solidariedade no começo da história. Que gestou foi esse?

  1. É possível ver a enorme influência que do clero na cidadezinha através de que cena?

  1. O que é dito no filme acerca do celibato?

  1. Por que Natálio preferiu ser expulso da igreja?

  1. Qual a ironia presente na última cena do filme?

RESPOSTAS:

  1. Há vários elementos:
A hóstia (comida pelas crianças e pelo gato de Dionísia).
O manto da santa ( que cobre a nudez de Amélia).
A passagem do livro de cântico dos cânticos usada no ato sexual com Amélia.
A própria igreja e a imagem dos santos (cenário para o beijo)

  1. Dionísia.

  1. Amaro dá dinheiro a um senhor que fora assaltado.

  1. As beatas  fazem um protesto no qual um garoto acerta um pedrada na cabeça do pai de Rubem.

  1. Os padres dizem que o celibato deveria ser opcional. Pe. Benito acha bobagem, pois ele vive uma relação secreta com Sanjuaneira.

  1. Porque a vida de líder camponês era mais cristã e digna que a dos sacerdotes corrompidos pelo dinheiro. 

  1. Amaro faz uma oração que expressa arrependimento, mas não assumiu a culpa pela morte de Amélia nem pareceu sentir nenhum remorso.